Antes de ir à Europa, minha prima pediu que eu fosse à San Diego 5 dias antes da viagem para ajudá-la com os documentos da agência de turismo e conhecer os alunos que viajariam conosco. Adoro San Diego, adoro minha prima, adorei o presente (passagem) ofertado. Não tinha motivos para não ir.

Durante o final de semana, tiramos um tempo para descansar e curtir a vida noturna californiana. Ansiedade durante o dia, cansaço durante a noite. Quem me conhece sabe que eu não sou de negar convites para sair de casa, principalmente se for a noite. Minha condição física geralmente não interfere na vontade de sair. Eu sempre tenho disposição.

Naquele sábado, em particular, não sei porquê, estava desanimada para festa. O namorado da minha prima tinha comentado durante a tarde sobre um programa alternativo. Eu sabia que tinha a ver com cinema, mas não obtive muitos detalhes.

Após um happy hour com as amigas da minha prima, ela e o namorado me sugerem a possibilidade de acolher aquele programa mencionado à tarde. O show daria início à meia-noite. Cansada do jeito que eu estava, daria tudo para evitar sair na balada.

Compramos nossos ingressos [num cinema] e esperamos numa LONGA fila para entrar. Eu mal sabia do que se tratava, mas aceitei a proposta mesmo assim. Aliás, adoro programas culturais, principalmente quando são novidades.

Todos na fila pareciam extremamente ansiosos. Cada indivíduo com sua tribo. Entre clubbers, travestis, nerds e… [eu], posso confirmar a boa variedade de pré-conceitos que participariam do evento. Acompanhei um povo descolado que vestia diversas fantasias com um toque de sexualidade bem imponente, eu diria. Vendiam uns saquinhos fechados por $3. Eu achei melhor não questionar. Um homem gritando ao longo da fila, perguntava quem era novato na “Experiência Rocky Horror”.

Nessas alturas, por mais curiosa e impaciente que pudesse estar, fiquei com medo de confirmar. Atrás de mim se manifestou um “novato”. Vem em minha direção, o mocinho que acabara de perguntar, com um batom vermelho na mão. Além do V de “Virgem” desenhado na testa do cidadão, os amigos que levaram o “novato”, tinham o direito de escolher onde e o quê desenhar no rapaz. Comecei a rir, e fingi conhecer o processo, virei pra frente, fiquei na minha.

Quando me virei para ver o desastre que fizeram com o coitado, não pude conter a gargalhada. Me deparei com um japonês mascarado de Hello Kitty. Logo atrás dele, surge uma pessoa andrógena com traços de batom bastante obscenos situados nas proximidades da garganta, bochechas e boca. Já devem imaginar o quê. Eu achei que era mulher, mas minha prima insistiu em afirmar o contrário. Decidi então, NÃO ser ‘Virgem’ do processo. Afinal, ainda estava em condições de evitar o constrangimento coletivo.

Entramos na sala cinema, que ficou com as luzes acesas boa parte do tempo. Fomos cautelosos com a escolha das poltronas. Pipocas, saquinhos, rolos de papel higiênico e até isqueiros faziam parte dos acessórios do público. Até então, não estava entendendo muita coisa, mas tampouco busquei explicação imediata. Estava interessada no que viria pela frente.

A longa introdução do ritual começou apresentando cada membro do ‘Shadowcast’ (shadow = sombra / cast = elenco). Nunca tinha ouvido falar. O elenco investiu no figurino e tinha aproximadamente 15 pessoas envolvidas. Infelizmente não pude tirar fotografias. Logo em seguida, o público fantasiado foi ao palco para uma ‘competição’ de melhor figurino. O vencedor teve o privilégio de ser o primeiro, entre todos os outros a escolher um dos presentes (de aproximadamente R$1,99) dentro de um saco preto. Assim também ocorreu com as brincadeiras seguintes. Depois, foi a vez dos joguinhos sacanas com os ‘VIRGENS Rocky Horror’:

  1. Uma ciranda do elenco para abraçar o público novato. O elenco canta uma das músicas da trilha sonora do filme “Rocky Horror Picture Show”, enquanto rebolam e tentam enquadrar seus membros fálicos em qualquer lugar, até deixar o público sem ter pra onde ir.
  2. Os requisitados para a próxima tarefa deveriam escolher um par, integrante do elenco. Com uma banana na mão, descascada, à altura da cintura do colega, os – até então – VIRGENS deveriam ajoelhar-se e comer a banana o mais rápido possível, de preferência com menos mordidas. Que idéia!
  3. Sabem aquelas balas de gelatina, tipo minhoquinha?! Então, nos Estados Unidos tem uma que é o quádruplo do comprimento da minhoca. Em pares novamente, outro grupo de novatos toma lugar na brincadeira. Com as extremidades da gelatina na boca de cada indivíduo/par, deveriam comer a goma por inteiro, sem morder com os dentes. É claro que tivemos a cena clássica de duas mulheres se beijando loucamente no centro do palco. Querem mais? Elas estavam “fantasiadas”, ou seja, dois adesivos em forma de estrelas cobriam os mamilos e o resto vocês podem imaginar.
  4. Outra musiquinha da trilha sonora do filme para encerrar o batismo.

A partir daí explicaram um pouco mais sobre o ritual e deram início, finalmente, ao filme “ROCKY HORROR PICTURE SHOW”. Quem não viu, deveria ver. Quem nunca participou de um Shadowcast, deveria participar. Para clarear a mente daqueles que não assistiram, o filme é um clássico de 1975. O elenco conta com Susan Sarandon, Tim Curry, Barry Bostwick, Richard O’Brien, Patricia Quinn, Little Nell, etc. Dirigido por Jim Sharman, a história trata de um casal de namorados, Brad e Janet que atolam o carro, após uma chuva intensa. A única via de socorro parece ser um castelo que viram há poucos metros de onde o carro parou. Na mansão, são convidados a entrar e portanto, levados à presença do bizarro Dr. Frank N Furter, um transsexual prestes a revelar seu próximo experimento: dar vida a um jovem musculoso a fim de utilizá-lo como seu brinquedo sexual. Logo, Brad e Janet são influenciados pelo Dr. Furter e acabam traindo um ao outro, com os personagens envolvidos na história. Furter se rebela contra ambos, mas a medida que toma uma atitutde em relação ao seu descontentamento, é repreendido pela presença de visitantes do seu planeta natal, Transilvania. Estes chegam à Terra e estão decididos à cercear de sua vida os excessos sexuais.

A verdade é que o filme mais parece um pesadelo sexual, onde as vítimas que chegam ao castelo acabam participando de todos os tipos de orgias, hetero e homossexuais. O uso abundante de uma iconografia sexual bem específica é a proposta mais trash que deu certo. Considerado um dos filmes mais vistos do mundo, acompanhado por seguidores e fan clubes há mais de 20 anos, deve ter lá seus benefícios culturais. Tudo bem que tenha sido chocante na época, mas ainda tenho minhas dúvidas. Talvez tenha que ver outras vezes para arrancar uma opinião mais formada sobre o filme.

Bom, o programa cultural mal começou… Achei que depois de toda essa loucura orgiástica pré-introdutória, dariam início ao filme e eu poderia analisar com toda a cautela e atenção necessária, ATÉ surgir o Shadowcast.

Sha.dow cast = Um grupo de pessoas que interpretam cenas em frente a um telão de cinema enquanto o filme está rodando; eles essencialmente imitam o que os personagens no telão estão fazendo e dizendo; atuam. Mais frequentemente visto em exibições do filme “The Rocky Horror Picture Show”.

Literalmente um grupo de atores, fanáticos pelo filme, que possivelmente já o assistiram bem mais de 15 vezes. Enquanto o filme roda, não tem silêncio. Daqui, ouço um grito preenchendo as lacunas dos momentos de tensão, medo, pânico. De lá, um roteiro inteiramente independente, do qual todos estão familiarizados. A dancinha, tipo ‘thriller’ do MJ, conta com o público de pé, copiando os passinhos do telão. Descobri então a utilidade dos saquinhos de $3 que vendiam na entrada. DURANTE O FILME: Quando chove, o público está munido de arminhas de água para jogar nos colegas ao redor. Quando cantam uma música triste, lá está o isqueiro para acenderem coletivamente no escuro. Quando a orgia está rolando, confettis são lançados ao outro lado da sala. Não comprei o saquinho, portanto não posso ser muito mais específica. Não lembro.

Isso tudo acontece, enquanto os atores, na frente do telão, com o mesmo figurino de seus devidos personagens no filme, cenário, iluminação e efeitos especiais montam o espetáculo.

Eu ri muito. Experiência 100% válida. Talvez não seja algo tão agradável para fazer todos os dias, mas certamente um programa para levar os amigos e se divertir de verdade: Pura liberdade de expressão! Na próxima vez, já vou mais preparada. Figurino completo, roteiro aleatório de cor e salteado, músicas na ponta da língua, passinhos coreografados, [e claro, não esquecerei de levar meu colega mais VIRGEM de todos].