A tal da Lucy, produtora do possível filme, resolveu aparecer na minha Caixa de Entrada em plena madrugada de terça-feira. Enviou um anexo com uma programação meio maluca dos dias por vir. Eu estava totalmente perdida. Alguém havia me dito que o horário marcado para o “check-in” dos atores seria às seis horas da matina, de uma quarta-feira. Outra pessoa não deu bola, dizendo que seria inútil tomar café-da-manhã com os tão frescos raios de sol. Não-sei-quem tentou me convencer a perguntar uma terceira vez pelo horário certo. Decidi esperar.

Quinta-feira fui requisitada. Exatamente na noite do dia anterior à gravação, não apenas solicitaram minha presença, mas também a de um guarda-chuva preto. Eu deveria entrar no Set às 10 horas da manhã. Concordei ser um horário bem razoável. No entanto, NÃO sei de onde tiraram a idéia do guarda-chuva preto. Aliás, isso é parte da produção. O que eu, como atriz, tenho a ver com isso? Pensei: meu primeiro filme, não posso vacilar! Devo simplesmente tirar da cartola um estiloso guarda-chuva preto e ser feliz. Onde arranjar um desses? Será que a minha sombrinha lilás daria conta do recado?

De repente sinto a indignação de um colega via mensagem no meu celular:

Joey: “Então, 10am amanhã? Não 6am… É um pouco difícil de compreender. E NÓS precisamos levar guarda-chuvas? Acho que isso é muito em cima da hora. Eu não tenho um. Você tem? O Michael tem? Eu não tenho tempo de comprar um. E mais, é verão, onde nas ‘cucuias’ vou conseguir um guarda-chuva PRETO? Totalmente inconveniente!*

Quinta-feira:

Joey – via mensagem: “Eu não acho um guarda-chuva PRETO, nem azul, nem marrom. Se eu continuar procurando, chegarei atrasado.”

O Michael disse que me buscaria às 9:30am. Achei tarde. Da última vez nos perdemos. A verdade é que eu não podia reclamar, já que estava de carona. Eu já tinha consciência de que ele sempre demora e não cumpre muitos compromissos. Nesse caso, eu não tive muita escolha. Demoraria muito mais de ônibus e deveria ter acordado muito mais cedo.

Ele chegou às 9:45. Entrei no carro, com meu figurino básico (preto) e minha sombrinha lilás. Parece que ele já estava preparado com sua mochilinha cheia de roupas pretas e um GUARDA-SOL preto.

Chegamos no Set. Assinamos um quadro, onde nossos nomes estavam escritos, e colocamos nosso horário de entrada. Atrasados, claro. Entramos por um corredor ao lado do Studio, onde estavam sendo gravadas as cenas. Fomos direcionados à uma das salas dos fundos. Depositamos nossas mochilas em um dos cantos da sala e sentamos onde todos os outros atores estavam. À nossa esquerda, haviam duas maquiadoras transformando rostinhos angelicais de atores em temerosos zumbis.

Olhei para o meu lado direito e vi uma mesa gigante de “café-da-manhã” repletos de donuts, bagels, manteiga de amendoim, geléia, nachos, cenoura, chocolates e bebidas. Que combinação, pensei. Bem americanóides mesmo!

Enfim, uns liam, outros recebiam massagens, alguns dormiam à espera da gravação.

Fomos chamados por volta das 13h30, 15h00 e 16h15.

Ao entrar no Set de gravação, não podíamos fazer barulho algum, para não atrapalhar a sonoplastia ‘perfeita’. Tenho que admitir que a cena era quase um terrorismo. Provavelmente eu não deveria estar falando sobre isso, porque a Premiere sairá em Novembro, mas não me importo, pois não assinei contrato. Valeu a experiência e gostaria de compartilhá-la com meus leitores exclusivos.

Como fundo de cena, uma banda de rock LIVE tomava conta do espaço. Todos os integrantes utilizavam óculos escuros e maquiagem ‘à la Zumbi’, como nós. Coletinhos Harley-Davidson, calças de couro, bandanas, cabelos compridos e pêlos em excesso nas axilas faziam parte do ‘estilo’ da banda. O cenário só contava com um muro de tijolinhos à vista atrás do grupo. Havia também um tecladista, que sem óculos escuros, me lembrava o Jack Nicholson; Com óculos e efeitos de luz, virava Ray Charles. Que transformação!

Entre a banda, havia um casal, os protagonistas do filme. Ele, o próprio diretor. Ela, uma atriz hollywoodiana famosa por um seriado local. Ambos vestiam um terno preto, bem masculino. Isso não vem ao caso, mas ela parece o Grinch, aquele personagem verde de um conto infantil. Eles dançavam ao som da banda, com um sorriso assustador no rosto, enquanto ele segurava um guarda-chuva preto, no escuro. Os dois balançavam de um lado para o outro, sem mover os pés, num ritmo esquisito.

No centro, estávamos nós: Zumbis. Em um círculo, nos movimentavamos como Mortos-Vivos, minhocas, livres de esqueleto humano. Um outro casal aparecia, e nós os atacávamos violentamente, até eles subirem num praticável e obterem o efeito de suspensão. No paraíso, céu, ou para ser mais objetiva: em cima daquele praticável, presenciamos a loucura de um beijo quase sem fim. Enquanto isso, nós ficávamos cada vez mais distantes do casal, até o nosso sumiço total.

Para essa cena, levamos o dia inteiro. Primeiro gravaram somente a banda, depois somente o tecladista com o casal protagonista, a nossa entrada, e por fim, a fuga do segundo casal.

Ao final, toda a equipe de produção, o diretor e alguns atores já estavam bastante cansados, estressados e querendo atirar o sapato na cabeça de qualquer intruso que ousasse atrasar dois minutos de cena. Não é nada fácil comandar um grupo grande na montagem de um quadro cinematográfico.

Após o término das cenas, um dos diretores e organizadores da produção me puxou de canto e me perguntou se eu era A BRASILEIRA. Afirmei e recebi um: “Sinto muito, você terá créditos, seu nome estará nas letrinhas finais do filme, mas infelizmente não podemos assinar um contrato porque você não tem permissão de trabalho em território americano.” Suei e soltei um suspiro quase ofegante. Me recompus. Muitas emoções para um dia só.

Valeu a experiência, de todas as maneiras… Meu primeiro filme!