Tags

Audição #1

Finalmente uma audição (para um trabalho professional)!

Graças à Marjo-Riikka!

Sábado, os raios de sol, fresquinhos, perfuraram a tela que protege a janela do meu quarto. Num dia cheio de esperança, acordei empolgada, ansiosa, mas tranquila. Era O dia! A cada quatro minutos e meio, checava o celular para ver se o endereço e horário da audição chegavam via mensagem. O relógio já indicava 10h da manhã. Olhei meus e-mails, nada. Tampouco queria ser insistente e ligar mais uma vez. Talvez ainda não fosse hora. Convidei a paciência para sentar-se comigo!

Ao longo da minha estadia aqui, conversei com alguns atores e diretores, e percebi que a maioria das audições variam entre 10h e 17h. Portanto, podia esperar mais um pouco. Li, cozinhei, comi, relaxei até 12:30h. Não aguentei de ansiedade e liguei.

  • Wayra: Oi Marjo-Riikka querida, tudo bem? Desculpa incomodar, mas gostaria de saber quando será a audição e o horário.
  • Marjo-Riika: Wayra, não posso falar agora, estou no meio da audição. Você não recebeu as minhas mensagens com as informações? Vou te mandar de novo. Depois te ligo. Beijo!
  • Wayra: Não recebi nada, mas aguardo novamente. Beijo!

Pensei, COMO ASSIM? Droga! Estará tudo perdido?! A audição já começou. E agora? O que eu faço? Não é possível que eles tenham tirado o chocolate da minha mão, o doce da minha boca. E o meu sinal? Como fica? Chequei três vezes as mensagens do meu celular para ver se ela tinha mandado, pois talvez fosse eu a culpada por toda essa confusão. MAS EU NÃO RECEBI NADA.

“Ei, paciência! Chega mais!”

Deve haver alguma solução! Eu não posso simplesmente perder a minha PRIMEIRA AUDIÇÃO. Não faz sentido! Acho que Deus não escreveu o meu destino entre linhas tortas, talvez tenha sido de trás pra frente, (no mínimo)!

Enviei uma mensagem à Marjo-Riikka pedindo auxílio, pois ainda não havia recebido nada. Cinco minutos depois, ela ligou:

  • Marjo-Riikka: Wayra, não posso falar ainda, mas o endereço é (tal…) e você tinha que estar aqui há alguns minutos. A sua turma está esperando o grupo anterior sair da sala ainda. Se você conseguir chegar em 15 minutos, venha. Se não, não se preocupe, haverão outras oportunidades. Beijo!

 

“Meu Deus! Quanta pressão! Aaaaaaaaaaaargh!”: um grito de desespero.

 Meu lindo dia ensolarado, de esperança e felicidade ficou cinza de repente e agora ja arrotava trovões alucinógenos.

PARA TUDO! Por que pensar em tragédia? Foi exatamente o momento em que parei e lembrei da persistência quase cinematográfica da minha mãe. Ela que deveria ser a atriz da família!

Quando tudo está prestes a se perder, quando os planos são sugados pela corrente da fossa, e é hora de soltar o palavrão que não entra na minha casa – (para os novatos, e quem não a conhece, o palavrão é: Desistência; com todos os seus derivados)! Shhhh! – Exatamente antes daquela gotinha decidir cair na escuridão, minha mãe encontra uma solução. Não é porque sou filha, mas é incrivelmente sensacional o poder que ela tem de ‘fazer acontecer’! Quem a conhece, bem sabe!

Levantei então, os obstáculos:

– Considerando o transporte pelo qual me locomovo em Los Angeles, que é o metrô, e mais uma bela caminhadinha, a audição ficaria há 55 minutos de onde eu estava.

– Eu deveria chegar em 15 minutos a partir daquele momento, da chamada.

– Eu não tinha nenhuma informação sobre papel, personagem, produção, nome do filme, se era curta ou longa. Não sabia nada!

– Geralmente escolhemos o figurino, de acordo com as audições, mas eu não sabia bulhufas do que se tratava.

– Descobri que o papel não era remunerado.

E as motivações:

– Era A MINHA PRIMEIRA AUDIÇÃO [PROFISSIONAL]!

– Era o meu sinal! [Meu chocolate, meu doce.]

– A minha professora que me indicou, não poderia me dar o luxo de simplesmente ‘não ir’ porque não recebi as informações em tempo.

– Mesmo sem comissão, se chamada, poderia ganhar créditos no sistema internacional da indústria de filmes*.

– Não haveria falas, portanto imaginei que seria mais trabalho de corpo ou expressões, que é exatamente o que estou estudando agora. Por essa hipótese, considerei uma roupa mais confortável. Mais do que isso, poderia colocar meus exercícios em prática.

* Muitos atores sonham com esse crédito e muitos não conseguem! *** Só por esse tópico, já pude relevar todos os obstáculos e, este, apenas, me valeu por cinco motivações mais. Se o NÃO eu já tinha, por que não ir em busca de um SIM? O máximo que poderia acontecer é não ser chamada, mas ainda assim, teria a chance de conhecer outras pessoas. Aliás, se eles gostarem do meu trabalho, e ainda assim eu não for ideal para este papel, talvez não seja nessa, mas numa outra audição ainda podem me chamar. E se no total, ninguém gostar do meu trabalho, eu poderei dizer que já tive a experiência de estar numa audição. Concluí então, que nada poderia perder. Desejei sorte à mim mesma, seja qual for a [in-]decisão da equipe da audição!

No final das contas, não tinha muito o que pensar. Eu PRECISAVA ir. Nem que eu chegasse 3 horas depois, pensei: Eu tinha que fazer acontecer. Como a minha mãe sempre me ensinou, desde pequenininha: Preciso acreditar que não existe empecilho para os meus desejos. Eu quero, eu posso, eu consigo. (Alguém já ouviu isso antes? Eu quase cansei.) Concordo quando dizem que: “quem tá na chuva, é pra se molhar!”

Agora… Não me perguntem como, só sei dizer que em 15 minutos, lá estava eu, na porta do Studio, com minha headshot na mão, rímel nos cílios, blush na bochecha e um sorriso amarelo, bastante ofegante!

A AUDIÇÃO:

A Marjo-Riikka já estava dentro da sala quando eu entrei. Ela deu uma piscadinha e me falou baixinho: Que bom que você veio! Logo, ela seguiu, alto, para todos:

“Bem vindos, vou começar o preparo de corpo para a audição!”

Ahhhh, ela não estava ‘audicionando’! Ela estava lá para preparar os atores. O que é melhor ainda, porque se ela me indicou, e algum dos diretores sabe, minhas chances aumentam.

1. Terminando um louco alongamento, onde trabalhamos todas as articulações do corpo com movimentos bastante subjetivos, partimos para a audição propriamente dita.

2. Primeiramente focamos na pélvis, que deveria ser a origem para o impulso que nos movimentaria a partir dali. Depois, deveríamos encontrar um ponto específico no nosso corpo, como se fosse uma ferida, bem grande, e mostrar essa deficiência corporal, de forma exagerada. Imaginem dez atores andando de lá pra cá, arrastando o pé, com o braço quebrado, a perna torta, o tronco caído?! Bastante assustador, não é? Para piorar, adicionamos sons e grunhidos que correspondessem aos nossos movimentos. Quer personagem mais abstrato e surreal do que isso?

Só podia remeter esses personagens aos dos filmes: Resident Evil, zumbis, Chuck, Tim Burton, e afins. Algo muito obscuro, na verdade.

Não posso confirmar, mas acho que acertei, pois o próximo exercício era exatamente o Morto-Vivo. Não o Morto-Vivo que brincávamos na infância, o incansável (naquela época) levantar e abaixar, até alguém cometer uma falha. Eu diria que é um Morto-Vivo de adulto, portanto, um pouco mais complexo.

3. Descrição: O diretor traçou um caminho com ponto de início, meio e fim. Deveríamos começar no chão, mortos. Ao som de uma clássica trilha sonora, um repentino suspiro nos traria a vida. Tentaríamos caminhar até a metade do trajeto estabelecido, como se lá houvesse a luz da vida eterna. Ao chegar, encontraríamos qualquer tipo de felicidade e euforia. Nesse estágio, poderíamos interagir com os outros atores. Dentro de segundos, a “morte”, nos puxaria pelas costas, enquanto lutamos para alcançar a luz. Porém, essa força que nos puxa, não é humana, logo, muito mais forte do que nós. Sofrendo e lutando contra a volta para a escuridão, voltamos aos poucos para o ponto de início, que é também ponto final, onde um último suspiro nos seria concedido, até o encontro com a Morte.

4. O penúltimo exercício da audição consistia na formação de uma fila para comprar cerveja numa loja de conveniência. Devíamos manter o corpo deformado por conta da grande ferida que supostamente, nos matou. Eu era a última da fila. Todos fizeram mais ou menos a mesma coisa. Eu estava pensando, de que maneira poderia ser diferente. O penúltimo, na minha frente, certamente pensava em como fazer uma escolha original também. Ele chegou no caixa, deixou o pescoço cair para o lado esquerdo, pegou a cerveja, abriu e tomou pelo pescoço, como se o furo estivesse ali, apreciando uma loirinha gelada no cangote.

Minha vez: Deixei o pescoço cair pra frente, e olhei para o caixa com olhar quase fatal, mas ao invés de sensual, joguei um fitar concentrado, como se pudesse enxergar seu cérebro. Enquanto isso, meus olhos viravam, como se eu estivesse invocando um espírito. O caixa (diretor) me perguntou o que eu queria. Meus olhos pararam de virar e eu o encarei profundamente. Ele entendeu o recado, e começou a rir. Me alcançando uma gelada, perguntou: Uma cerveja? Eu peguei de sua mão, com raiva e continuei esperando, por mais uma. Dessa vez, rosnava e ria pavorosamente.

Acho que ele gostou.

5. Finalmente, o ultimo exercício. Ainda com os corpos ‘monstruosos’, deveríamos definir nosso lar. Como seria? Inferno? Escuro? Gelado? Quente? Além disso, como seria nosso comportamento nesse ambiente. Feliz? Triste? Solitário? Eu comecei a cantar, e rir de desespero. Andava de lá pra cá, sem rumo. Nessa altura do ’ campeonato’, nem via mais os meus companheiros. Estava tão envolvida nas minhas escolhas que não tive olhos para mais ninguém, se não meu coitado personagem.

O diretor agradeceu, junto com a Marjo-Riikka, disse que entrariam em contato com quem fosse selecionado para a próxima fase.

Silenciosamente, agradeci à Marjo-Riikka, peguei minhas coisas e saí da sala. Na porta, esbarrei com o diretor. Ele agradeceu e me parabenizou. Disse que eu tinha feito um ótimo trabalho!

Caminhando de volta para casa, recebi uma mensagem da Marjo-Riikka: “Bom trabalho! Boa sorte!” Um sorriso preencheu meu rosto e, apenas sábado, mais uma vez, a esperança me mandou um sinal. Meu sábado de sol voltou a exibir seus raios de sol mais brilhantes.

That’s all folks!