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Estive estudando mais um pouquinho, por isso demorei a escrever. Sorry!

Eu já conhecia alguns textos de David Mamet. É o tipo de cara que se ama, ou se odeia. Eu concordo que ele pode ser bastante irritante em alguns momentos, suas críticas me incomodam às vezes, ele vive em controvérsias, mas não dá pra negar que suas obras são riquíssimas em todos os aspectos. Eu sempre quis desenvolver um estilo de escrita mais ou menos como a dele. Quem sabe um dia…

Para aqueles que não o conhecem, disponho aqui um diálogo clássico do estilo Mamet. Em sua obra, ‘Glengarry Glen Ross‘, dois vendedores imobiliários azarados consideram a possibilidade de invadir o escritório do patrão para roubar uma lista de boas indicações de vendas. George Aaronow e Dave Moss se equivocam com o significado de “conversar”e “falar”, transformando a linguagem em termos “traiçoeiros”.

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M: Não. Como assim? Se eu conversei com ele a respeito disso [Pausa]
A: Sim. Quero dizer você está realmente conversando sobre isso, ou estamos apenas…
M: Não, estamos apenas…
A: Estamos apenas “conversando” sobre isso.
M: Nós estamos apenas falando sobre isso. [Pausa] Como uma idéia.
A: Como uma idéia.
M: Sim.
A: Nós não estamos realmente conversando sobre isso. 
M: Não.
A: Conversando sobre isso como um… 
M: Não.
A: Como um roubo.
M: Como um “roubo”? Não.
  

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Interessante, não? Enfim. Algo que não consigo engolir, são alguns trechos do seu livro, True and False, onde o roteirista onipotente desafia o ator. São provocações compreensíveis do ponto de vista de um escritor, mas jamais de um ator. Se começar por aqui, o Artigo não termina hoje. Portanto, vou deixar esse papo para outro dia, quando houver alguém que possa me explicar, de fato, o que ele quis dizer com tantos palpites arrogantes e uns tais quês de mesquinhez.

Me perco entre as centenas de livros sobre as artes cênicas. Seja em livrarias, sebos ou bibliotecas Reais, considero quaisquer livros, pequenos tesourinhos para o ator. Entre alguns clássicos americanos, mergulhados entre as técnicas de interpretação, encontrei um, cuja introdução foi escrita por Mamet. Me chamou atenção. Como tenho certa apreciação pela maioria de seus textos, resolvi traduzir e colocá-lo a disposição. Diga-se de passagem que concordo com todas as palavras e intenções do prefácio, a seguir.

“A PRACTICAL HANDBOOK FOR THE ACTOR”

(Um Guia Prático para o Ator)

Introdução de David Memet.

“A maioria dos treinamentos de interpretação são baseados em vergonha e culpa. Se você estudou Atuação, você deve ter feito exercícios dos quais não entendeu, e quando o fez, seu professor o julgou como péssimo, e você se submeteu culposamente à crítica. Você também já deve ter feito exercícios dos quais entendeu, mas a razão pelos quais os fez não ficaram claras, e você ficou com vergonha de pedir uma explicação sobre sua utilidade.

Quando você fez esses exercícios, pareceu que todos os alunos entenderam o propósito pelo qual os fizeram, menos você – então, culpado, você aprendeu a fingir. Você aprendeu a fingir que “sentia o cheiro do café” quando fazia os exercícios sensoriais. Você aprendeu a fingir que o “exercício do espelho” era exigente, e que fazendo isso bem, você conseguiria, de alguma forma, ficar mais concentrado no palco. Você aprendeu a fingir “escutar música com seus dedões do pé”, e como “usar o espaço”.

Enquanto você trocou uma escola pela outra e um professor pelo outro, duas coisas aconteceram: como ser humano, sua necessidade em acreditar, afirmou-se. Você relutou em acreditar que seus professores eram fraudes, então você começou a acreditar que você era uma fraude. Esse desprezo por si mesmo tornou-se desprezo por todos aqueles que não compartilharam uma tendência específica na sua escola de Atuação.

Mantendo a demonstração exterior de um estudo sem fim, você começou a acreditar que, na verdade, não existe uma técnica praticável de interpretação, e que essa é a única crença possível apoiada pela evidência.

Agora, como eu sei todas essas coisas sobre você? Eu sei porque sofri os mesmos dilemas. Eu sofri tudo isso, como aluno de interpretação por longos anos de estudo do personagem, e também como ator. Eu sofri tudo isso, como professor de interpretação, como diretor, e como roteirista.

Eu sei que você é dedicado e ansioso – ansioso para aprender, anioso por acreditar, ansioso para encontrar uma maneira de trazer a arte que você sente, em si mesmo, para o palco. Está legitimamente disposto a sacrificar-se, e você acha que o sacrifício exigido de você é uma sujeição à vontade de um professor. Mas um sacrifício mais exigente é necessário: você deve seguir os ditames do seu bom senso.

Seria bom se houvesse vários grandes mestres e professores de Atuação, mas não há. A maioria dos professores, infelizmente, são fraudes, e dependem da sua cumplicidade para sobreviver. Isto não só o priva de treinamento positivo, mas sufoca seu maior dom como artista: seu senso de verdade. É esse senso de verdade, uma simplicidade, e os sentimentos de admiração e reverência – o que você possui – que vai revitalizar o teatro. Como trazê-los para o palco?

(…) Seja o que você deseja parecer.

Stanislavski escreveu uma vez que você deve “interpretar bem ou mal, mas fazê-lo com verdade.” Não cabe a você dizer se o seu desempenho será brilhante – tudo o que está sob seu controle é a sua intenção. Não cabe a você dizer se sua carreira vai ser brilhante – tudo o que está sob seu controle é a sua intenção.

Se você pretende manipular, mostrar, impressionar, você pode vivenciar o  sofrimento sutil e triunfos agradáveis. Se você pretende seguir a verdade que você sente em si mesmo – para seguir o seu bom senso e forçar a sua vontade de servi-lo na busca de disciplina e simplicidade – você estará se submetendo ao profundo desespero, solidão e constante auto-dúvida. E se você perseverar, o Teatro, Aquele que você está aprendendo a servir, enfeitará você, agora e depois, com a maior alegria possível.

David Mamet, Vermont, 1985.

Nota: As traduções do diálogo e do prefácio foram feitas por mim, portanto, pode haver quaisquer resquícios de falhas gramaticais ou interpretação. Coloquei-os assim, pois é a forma que me pareceu mais compreensível e legível. Assumo total responsabilidade pelos erros cometidos. Aceito sugestões, palpites e correções.