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Quem acompanha minhas experiências, deve lembrar de um post, bem no início dessa louca idéia de ter um blog, cujo título referia-se à Jornada da Desempregada I. Pois é, não foi preciso esfregar nenhuma bola de cristal para saber que logo haveria um novo artigo relatando minha difícil caminhada pela busca de um emprego nos Estados Unidos…

Há um mês e meio, aproximadamente, entrei em contato com uma agência de Extras, onde o trabalho não deveria ser mais complicado do que lambuzar um sorvete na testa. Quando fiz minha breve “audição”, a tal diretora Carmen se apaixonou por mim, queria me convidar para tomar um café, foi mais do que simpática e já estava me cadastrando em todos os projetos. Inocência a minha imaginar que somente atores tem a capacidade de interpretar. Aliás, acredito que os melhores atores são aqueles que revelam suas fantasias, te cativam, e são capazes de descrever histórias com minuciosos detalhes. Depois de um tempo, você descobre o tamanho da mentira que lhe foi contada.

Na reunião, ela prestou tanta atenção nos detalhes do meu rosto e comportamento, que não duvidaria se soubesse da confecção de algum ‘voodo’ feito por ela. Tenho medo de onde ela poderá espetar as agulhas, ou qualquer outro ritual ela poderá fazer nessa minha bonequinha gêmea. Não ficaria surpresa em saber que ela escondeu a minha Headshot (foto de rosto) numa garrafa e jogou ao mar, ou se queimou meu Curriculum com um fio de cabelo que acidentalmente deixei cair. Só sei que nunca mais ouvi falar da tal Agência. Não recebi e-mail, telefone ou qualquer outro meio de comunicação.

Chateada? Eu não. Não podia esperar menos de uma cidade onde chovem atores. Tornar-se Extra é um dos primeiros passos para o ator manifestar seu interesse pelo meio artístico que pretende entrar. Espero não encontrar muitos lugares com o mesmo nível de promessas, mas sei que é o que a maioria faz. Sabe aquele produtor que promete ilhas, contratos, helicópteros e um mapa para o baú do tesouro, em troca de apenas meia taça de vinho no “SOFÁ”? Então, julgo todo cuidado, pouco.

Tenho certeza de que logo vou encontrar algo “diferentemente” decente. Pensei em várias alternativas de trabalho, mas os documentos e a permissão de trabalho que não possuo, me impedem de conseguir um emprego mais ou menos civilizado. Meu consolo é que a população da Califórnia chega a acolher 13,7 milhões de pessoas Hispânico/Latinas (segundo a fonte: 2009, US Census Bureau). Ou seja, eu não sou a única brasileira perdida, com visto de turista, em busca de trabalho.

Não gosto de confessar, mas admito que o nosso povo tem sempre uma maneira especial de conseguir o que quer: somos mundialmente conhecidos pelo irritante “jeitinho brasileiro”. Quando dizem que “Malandro é malandro e mané é mané”, querendo distinguir um do outro, só consigo pensar em uma definição para ambos os conceitos, e infelizmente diz respeito à nossa nacionalidade.

Sem muitas opções, pelo menos nessa fase de ‘pesquisa de mercado’, decidi sair às ruas, batendo de porta em porta, e como dizem meus queridíssimos, gastando sola de sapato, em busca de uma possível fonte de renda.

Minhas considerações primárias foram, as seguintes:

1. Los Angeles é uma cidade muito grande e sem carro fica BEM difícil chegar aos lugares que deseja. Não é como São Paulo, Curitiba ou Nova Iorque, onde simplesmente o meio de transporte público supre todas as suas necessidades de locomoção terrestre. Aqui, carro é vida. Portanto, seja lá o emprego que for, deve ser perto de casa.

2. Quais seriam minhas experiências profissionais anteriores? Que tipo de trabalho eu poderia incluir no meu Curriculum que pudesse interessar aos ‘patrões’ ou abastecer os requisitos do empregador? Professora de teatro, dança, expressão corporal? Talvez, mas teria que buscar um público, porque sem recomendação e documentos, a solução seria encontrar uma sala de academia para alugar, dar as aulas, e cobrar o que eu bem entender. Problema: Conseguir público. Em dois meses não fiz tantas amizades assim.

 — Certamente não cogitei a possibilidade de inserir no meu CV, Professora de Idiomas. O pouquinho de alemão que domino não me serviria pois ninguém tem curiosidade em aprender outros idiomas. Português então, nem se fala. Estou em território americano, onde – como disse antes, – a população hispânica é predominante, portanto, espanhol está fora de questão. E inglês seria piada tentar. —

3. TODO mundo sabe que o trabalho mais comum para estrangeiros, atores, estudantes e até recém-formados, nos Estados Unidos, é “garçom”. Trabalhar em restaurantes e bares, servindo bebidas e comidas à clientes, de mesa em mesa, exige paciência, habilidade e domínio do cardápio. Não preciso dizer que a gratificação por esses pequenos serviços, como costume americano, pode render uma bela de uma gorjeta, não é? De uma forma educada, diriam que é “opcional”. Experimente vir e ignorar os 20% da conta na mesa? Isto, se estiver sozinho, porque existe uma tabela específica para a quantidade de pessoas servidas, ou seja, a porcentagem da gorjeta aumenta de acordo com o pedido e as pessoas envolvidas neste crime. Realmente, bem “opcional” mesmo. Bem-vindos aos Estados Unidos da América!!!

 

Semana passada soube de duas vagas que abriram em dois restaurante há duas quadras de casa. Há menos de dez minutos caminhando, cheguei no bairro vizinho chamado Studio City. Fui conferir o ambiente dos restaurantes, com Curriculum e fotos (caso precisasse) em mãos:

  • O primeiro chamava-se Café Aroma. Aconchegante, charmoso e casual. Perfeito para encontros profissionais, reuniões de amigos, ou eventuais cafés da tarde entre namorados. Achei um pouco barulhento e generosamente ocupado. Bem iluminado, muitos funcionários correndo de lá para cá, e no ar pairava um perfume delicado de comida bem feita. O restaurante possui quatro ambientes: cantina/vitrine, pátio exterior, recinto interior, e uma pequena biblioteca.
  • Vitello’s era o nome do outro. É um restaurante italiano, mais silencioso e reservado. Apesar de prevalecer a especialidade da casa cuja gastronomia é italiana, não pude deixar de notar no tamanho da petit porção dos pratos, quase ‘à la française’. Durante o dia, o pátio externo é aberto ao público. Ao entardecer as cadeiras ao ar livre são removidas, e o jazz faz a noite dentro da casa. Requintado e misterioso, me faz crer que seria um belo lugar para o primeiro encontro de um casal, a celebração do aniversário de algum membro da família, comemoração de alguma promoção profissional, etc.

Descobri que várias celebridades frequentam os dois lugares. Nada mal começar com a oportunidade de estar perto de grandes figuras cinematográficas, pensei.

O primeiro estava abarrotado de cidadãos esperando na fila da cantina, ou em busca de uma mesa para dois, seis, ou três pessoas. Furei a fila e fui direto ao caixa perguntando pelo responsável, gerente ou se estavam contratando funcionários. Senti que com aquele ambiente sobrecarregado, tive que ser objetiva. Me deram um formulário e o entreguei logo em seguida, preenchido, junto com o meu CV.

No segundo, cheguei com as mesmas intenções e perguntei pelo responsável. Me respondeu o próprio gerente do famoso Vitello’s. Expliquei minha situação, perguntei se havia a necessidade de recepcionistas, garçonetes, hostess, ou lacuna em qualquer outra vaga. Ele leu meu Curriculum com cuidado e me fez algumas perguntas. Conversando, descobri que ele já foi ao Brasil várias vezes, morou quatro anos no Rio de Janeiro e fala muito mal o nosso português. Conquistei, pensei. Meu ego quase-que-afetado pelo toque americano me diz que os supostos “achismos” que carrego, quando penso ter conquistado alguém, são muito pouco eficientes.

Uma semana passou. Desconstruí meu celular, mas não constatei nenhuma evidência de quebra ou graves problemas de comunicação. Verifiquei meus e-mails, caixas de entrada, pastas, lixos eletrônicos, mas não recebi nenhuma novidade.

Cheguei à uma conclusão: É, acho que não conquistei ninguém [ainda]…