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Eu admito que sou carente. Preciso estar rodeada de pessoas. Tenho necessidade disso. Sei que não sou a única.

Sendo assim, deste jeito tão só, enviei um e-mail à turma do Chekhov Studio, com quem tenho minhas aulas de domingo. Pedi gentilmente que partilhassem comigo um pedacinho do dia 15 de abril, dia do meu aniversário. Disse que não conhecia muitas pessoas em Los Angeles, mas que adoraria ter a presença deles por perto. Já que não conversamos muito na aula, por questão de disciplina, achei que fosse uma bela oportunidade para reunir a turma. Eles tem uma energia muito boa, e são todos muito apaixonados pelo que fazem. Isso me faz sentir muito bem, me faz crescer. Finalizei o convite pedindo um abraço de cada um, no próximo domingo, como presente.

Alguns me responderam, outros me ligaram. Os que não se manifestaram e não disseram nada, me pediram desculpas quando cheguei na aula.

Incrivelmente e infelizmente, uma das respostas não foi muito agradável. Uma senhora pediu grosseiramente que eu removesse o e-mail da lista, para que ela não fosse mais incomodada por ‘eventos de outros da classe’. Ainda acrescentou que gostaria que seu e-mail fosse confidencial e não mero baú de spam ou correntes. Fiquei boquiaberta, tímida e triste. Sei que muitos não responderiam, aliás, a maioria agiria no mesmo nível de indiferença, se resolvesse responder. Eu escolhi outra alternativa. Mantive a classe. Afinal, ela poderia estar passando por um momento ruim, estar enfrentando problemas pessoais ou talvez precisasse apenas de palavras de conforto.

Pedi desculpas várias vezes, disse que jamais tive a intenção de invadir sua privacidade e que eu não deixaria de gostar dela por conta da ausência em meu aniversário. Concordei que todos tem seus motivos pessoais e que se assim desejasse, deixaria de incomodá-la. Tudo o que pude dizer para concluir o e-mail é como me sentia: envergonhada, e pedi perdão pelo meu “comportamento indecente”, ou qualquer outro erro que tenha cometido ao enviar meu convite pelo aniversário. Ainda coloquei uma nota, caso mudasse de idéia, que não hesitasse, pois eu adoraria recebê-la de braços abertos como minha convidada especial. Não fui sarcástica. Não recebi resposta. Ela não apareceu domingo, na aula.

Domingo, 15 de abril, 2012

CHEKHOV STUDIO

Entrei na sala, deixei minhas coisas de lado. Ninguém notou minha presença. O primeiro a me ver foi o Joey, que veio correndo em minha direção, se jogou em mim com um abraço muito sincero e agradável. Logo as pessoas foram me parabenizando, emanando  sussurros de luz. Não tivemos muito tempo para conversar, até porque, como eu disse antes, a disciplina governa a sala. O lugar onde temos as aulas, é como um templo sagrado, destinado ao trabalho do ator e desenvolvimento de concentração. Não podemos falar alto ou trazer sentimentos e notícias do cotidiano. Não falamos sobre as nossas vidas ou qualquer outra coisa, que fuja dos temas abordados em aula. Essas regrinhas, que parecem bobas, torna o trabalho muito mais intenso.

 O primeiro exercício foi uma grande ciranda de energia. Com a palma da mão direita para baixo e a esquerda para cima, formamos um círculo, de mãos dadas, e enviamos as energias positivas para o lado direito, enquanto recebíamos as energias do lado esquerdo. Sentímos o peito encher-se de luz como se fosse um sol imaginário no centro do nosso corpo, no coração de cada um ali presente. A professora pediu que eu fosse ao centro da roda e fechasse os olhos, para que os outros pudessem, enviar suas energias para mim neste dia tão especial. Inspirando e respirando, senti tocar o coração de luz de cada pessoa na sala e me senti muito poderosa.

De repente, da pequena cozinha, que dá acesso aos banheiros e ao estacionamento do Studio, surgiu a Marjo-Riikka e a Iivi. Elas seguravam uma bandeja, onde equilibravam taças de champagne para todos os alunos. A Marjo-Riikka brindou com um discurso que me fez estremecer, enquanto, no meu rosto rolavam muitas lágrimas de emoção.

Ela disse algo, como:

“Um brinde ao seu aniversário! Gostaríamos que soubesse que nós também sabemos como é estar longe da família. Sabemos que é difícil estar num lugar grande como Los Angeles, onde a solidão pode tomar conta de nós. Ainda mais quando celebramos uma data tão especial como esta. Agora, temos certeza de que você veio para realizar um grande sonho, e que nesta cidade, nós queremos ser a sua nova família. Queremos que você se sinta bem e que conte com a gente para o que precisar. Você é linda, meiga e muito inteligente. Temos certeza de que vai conseguir o que almeja… Saúde!”

Claro que é impossível reproduzir suas palavras. Foram muito mais bonitas do que imaginei, ou do que foi realmente dito. Foi muitíssimo especial e eu, simplesmente, amei cada intenção e sentimento com o qual se expressou. Adrenalina pura.

A aula não podia parar. Continuamos, até chegar o intervalo. Continuava pensando no discurso e em todo aquele amor que sentia por todo mundo. Logo após o primeiro tempo da aula, paramos por 5 minutos para tomar uma água, respirar, ir ao banheiro. Sentei junto às minhas coisas e abri uma garrafinha de água. Quando… da cozinha outra vez, saíram outros alunos trazendo vinte e quatro cupcakes orgânicos e três caixinhas cheias de morangos com velinhas acesas para cantar ‘Happy Birthday’. Me emocionei de novo.

Quase não consegui concluir meu agradecimento. Não esperava por nada daquilo. Conseguiram me surpreender de todas as formas. Confessei que o curso tinha sido o presente de aniversário mais lindo que pude receber dos meus pais, e sendo assim, que cada um dos colegas da turma, eram agora, meus novos presentinhos. Agradeci, entre outras palavras, e fiz meus três desejos antes de assoprar as velinhas.

Voltamos para a aula. Terminamos os outros exercícios planejados, aprendemos mais sobre outras técnicas Chekhovianas, intensificamos os Gestos Psicológicos e o Centro Imaginário do Personagem. Mais uma vez, a aula pegou seu jatinho particular e nos transportou para o mundo da imaginação. E como jatinho, a viagem acabou em poucos instantes. O relógio indicou o término da classe.

Todos se reuniram no final da aula para decidir onde iríamos. Como se não bastasse, recebi presentes: Ganhei uma vela aromática com um cartão assinado por todos, um buquê de tulipas holandesas laranjas, um buquê de flores roxas e vermelhas, um balão dos sonhos para queimar e deixar voar o mais alto que puder, chocolates, cartas, cartões, beijos e muitos abraços. Depois, como toda boa história emotiva americana, nosso dia acabou em pizza. Uma reunião, certamente, inesquecível.

Ontem eu falei com um amigo e ele revelou que sabia o porquê da minha felicidade e euforia em contar sobre o dia do meu aniversário. Que pretensioso, eu pensei. Ele continuou dizendo que já sabia o que tinham me dado de presente. Eu duvidei. Ele me contou: Te deram AMOR, não foi? Totalmente surpresa, caí em reflexão. Realmente…

“Eles me deram amor”, admiti!