Grupos de interesse podem ser extremamente úteis para o desenvolvimento profissional de qualquer indivíduo. Não consigo ver desvantagem, como atriz, num Clube Literário, onde além de treinar a habilidade de interpretar, alimento meu background com peças e escritores, clássicos, ou não. Durante estes encontros posso conhecer outros atores e é muito provável que venha a fazer novas amizades.

Bingo! Tudo o que eu preciso neste momento!

Entrei em contato com a Diretoria do Clube, e perguntei se poderia participar da leitura da próxima peça. Pediram que enviasse meu Curriculum Artístico e uma Headshot para arquivarem no sistema. Parece que a lista de endereços eletrônicos do Clube, possui mais de cem pessoas. Infelizmente, nem sempre é possível que todos leiam todas as peças, a menos que exista alguma com um elenco tão grande. Mesmo não participando da leitura em si, acho muito agradável poder acompanhar o treinamento dos atores enquanto personagens.

Domingo recebi um e-mail com a peça em pdf. e a seleção do elenco.

Peça : SUBURBIA

Autor: Eric Bogosian

Jeff – Carson Higgins

Sooze – Amy Bartlett

Buff – Oscar Gubelman

Tim – Travis James Riner

Bee Bee – Wayra Schreiber (♥)

Pony – Ben Montague

Erica – Liz Uhl

Naazer – Meng “Mack” Wei

Pakeesa – Mitra Pashayi Marandi

Stage Directions – Jeni Incontro

A peça trata de um grupo de jovens do subúrbio de uma pequena cidade dos Estados Unidos. Eles se reúnem em frente a uma loja de conveniência para beber, se drogar e contar sobre seus sonhos. Os donos da loja, um casal paquistanês, são alvos de preconceito de alguns desses garotos.

Pony, um velho amigo da turma, retorna à cidade depois de se tornar um astro da música pop. Além de ter produzido clipe na MTV, chega ao ponto de encontro dotado de  limusine, empresária e chofer. A presença de Pony revela diversos conflitos na história,  e fazem com que esses jovens idealistas reflitam a possibilidade de uma mudança em suas vidas.

No roteiro, não vemos um único protagonista. Existe, claramente, a perda de identidade e a incapacidade de progredir ou transformar o tédio que consome os personagens. Já que não existe um papel principal na história, o texto apresenta o cotidiano de vários “protagonistas”, que dividem o sentimento comum de impotência e falta de perspectiva para o futuro desses jovens.

A inércia em que os personagens habitam, na peça Suburbia, fez com que a crítica americana, comparasse o trabalho de Bogosian ao dramaturgo clássico russo, Anton Chekhov.

Como grandes dramaturgos norte-americanos das décadas de 70 e 80, lembramos sempre de Sam Shepard e David Mamet. Com estilo de escrita inovador e uma pitada de reflexões sobre a sociedade atual, penso que não devemos deixar para trás o mérito de Eric Bogosian, por Subúrbia.

É um autor norte-americano, considerado uma das maiores revelações da nossa geração. Escreveu o roteiro e atuou como protagonista no filme “Talk Radio”, produzido por Oliver Stone. Com isso, conquistou o Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim, em 1988.

Leitura “Dramática”:

O grupo de leitura da quarta-feira passada, não teve absolutamente nada a ver com a leitura que participei, antes de ontem. Gostei dos dois! Acredito que Suburbia tenha sido muito mais intenso e energético, simplesmente. Inevitável não perceber o contraste entre as turmas em que participei lendo, e o grupo anterior. Considerei uma atuação com o roteiro na mão, ao invés de uma leitura dramática. Isso porque ao invés de ler, sentadinhos, apenas com o texto em mãos, os atores, extremamente empolgados gritavam uns com os outros, e realmente incorporavam os personagens durante a leitura.

Como dito anteriormente, as pessoas chamadas para participar do elenco dessas leituras são sempre diferentes. Não porque a Diretoria do Clube queira, mas por interesse e disponibilidade dos atores. Infelizmente não existe um comprometimento de toda quarta-feira, o que é interessante, e não. Acho divertido a medida que sempre haverão outros desafios, novas peças, e pessoas diferentes. Por outro lado, a consistência do treinamento é o que constrói o desenvolvimento artístico.

SUBURBIA: Fiquei com medo de errar a pronúncia ou não entender alguma das falas de Bee-Bee (meu personagem, na peça). Sempre preferi ter o roteiro, livro ou qual fosse a leitura, nas minhas mãos. Pedi uma cópia do texto para o meu professor que gentilmente, me emprestou. A tarde li a peça inteira, e depois reli apenas as falas da Bee-Bee. Queria ter certeza que tudo correria bem.

Pra quê, né? Claro que algo estaria errado.

 Cheguei no teatro, super confiante e pontual. Dão início à leitura. Recuso o roteiro impresso e [com o ego lá no céu], pego o livro original da peça. Exibindo minha felicidade de criança, só me faltou dizer: “Eu tenho o livrinho, vocês não tem!!!!”. A história muito parecida, os personagens iguais. Só um detalhe: A versão que eles tinham enviado por e-mail, em pdf., e o roteiro que estava impresso na mão dos outros atores, era a ‘Nova Versão’. Ou seja, as falas dos personagens tinham sido atualizadas e era totalmente diferente do que eu tinha estudado a tarde inteira.

Pânico.

No final deu tudo certo, mas a escolha que tive que fazer para Bee-Bee foi diferente do que imaginei. Dessa vez, li como se ela estivesse drogada, ou lesada. O motivo, certamente foi pelo senso de que precisava ler mais devagar do que o normal. Usei isso a meu favor, e ainda assim, volta e meia tropeçava em algumas palavras.

Depois, descobri que o grupo que “leu” comigo, já tinha feito a peça antes. Os personagens, talvez não fossem os mesmos, mas a intimidade com o texto, entre eles, era muito menos sensível do que o meu contato com a peça.

Valeu a pena. Quero fazer disso, um encontro semanal. Pretendo me comprometer, mas por enquanto não posso garantir nada. Já estou curiosa para receber a nova peça…

Parece que a cada mês são quatro leituras, entre elas, dois clássicos, um roteiro cinematográfico e um trabalho de algum roteirista experimental.

Não é fantástico? Adorei a reunião.