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Toda cidade grande pode oferecer um pouco de solidão. Mesmo rodeada de pessoas, sinto falta de uma comunidade identificável, nessa multidão anônima. Estou tentando não cair nesse buraco que insiste em me seduzir. Às vezes me sinto sozinha e deslocada, mas não pretendo deixar isso me abalar.

Vejo que a maioria dos artistas tem uma grande dificuldade em se relacionar com o ramo de entretenimento quando chegam à cidade grande. Isso ocorre pelo fato de não conhecerem muitas pessoas da mesma área de trabalho. Pelo contrário do que a maioria das pessoas pensa, nem todos os artistas são altamente extrovertidos. Parece contraditório, mas não é. Aliás, por aqui, diferentemente do Brasil, tenho visto pouca timidez entre atores. Deve ser coisa da indústria! Provavelmente por motivos culturais, acredito que essa auto-estima que toma conta do ego dos cidadãos norte-americanos, pode ser bastante positiva, a medida que estar em contato com o maior número de pessoas do Showbizz, é extremamente relevante para a carreira artística.

Lutando contra a solidão, enquanto a dificuldade em busca de um trabalho, mais ou menos “fixo” aumenta, procurei perceber que outros meios poderiam me ajudar a aperfeiçoar as habilidades de interpretar, e ao mesmo tempo conhecer mais atores e artistas. De alguma forma, penso que as minhas primeiras semanas aqui, ao frequentar os seminários relacionados à indústria, me renderam alguns contatos. Los Angeles me inspira, e aqui eu respiro arte. Muitas vezes a arte se confunde no comércio, mas a tentativa maquiada de “arte”, vale a intenção. Com isso, surgiram várias idéias e projetos que eu adoraria ter a oportunidade de um dia colocar em prática. Sei bem que para isso, precisaria de outras cabeças pensantes para concluir a maioria deles. Anotado está.

Procurei então, através da querida internet, que não me falha um minuto sequer, dicas e conselhos para atores recém-chegados à Los Angeles. Encontrei uma infinidade de blogs, sites, livros e afins. Não precisava de muito. As informações que coletei, certamente já havia pesquisado. Redes sociais, cartões de visita, seminários, palestras, clubes e grupos de interesse, fazem parte da receita para o progresso profissional. Participar desses eventos, com certeza, é um dos primeiros passos para se envolver com pessoas da indústria.

Planos meus:

Semana passada, comecei a contar e anotar as peças que conhecia com seus respectivos autores, com o objetivo de criar um arquivo que me sirva de bagagem cultural para os próximos trabalhos. Penso que organizar uma pasta com esse tipo de informação me ajudará a longo prazo. Talvez, quando buscar tal registro, possa formar uma retrospectiva de alguma peça em minha mente, na tentativa de preencher algum personagem com uma possível pitada de criatividade (alheia, ou não).

Pensando justamente em absorver cada vez mais informações sobre dramaturgias e personagens, resolvi estabelecer uma nova meta pessoal: ler o maior número de peças e livros possíveis. Acredito que essa ferramenta é uma rica fonte de inspiração e criação. Como atriz, me envolver com histórias, produzir sensações, e não se limitar aos meus próprios sentimentos, pode me ajudar e “viver” outras situações, no palco.

A idéia? Sensata!

Prazo? Sem data de validade. A média sairá no primeiro mês.

Por este motivo, pesquisei ainda mais…

Eu gosto de estudar sozinha, mas ter a companhia de outras pessoas do mesmo ramo, pode me proporcionar novas amizades, oportunidades e possivelmente tardes muito mais agradáveis, do que teria se o fizesse só. Onde encontrar um grupo de pessoas interessadas em pesquisa teatral? Bom, estamos falando de Hollywood, portanto imaginei que deveriam haver vários. Haveria alguma sociedade com esta finalidade? Não me importava se incluiriam filosofias sobre a peça ou intensas horas de psicologia do personagem. Aliás, seria uma aula bem útil e agradável, se assim fosse. Infelizmente não encontrei organizações desse tipo, porém, descobri um Clube de Leitura Dramática. Me pareceu interessante. Era quase o que eu estava procurando. Enviei um e-mail. Fui conferir!

Eu ia sozinha. O Sean, que estuda comigo, mora perto daqui. Perguntou quais os meus planos para ontem à noite, e convidei-o para vir comigo. Quarta-feira, às 19h, chegamos no endereço da reunião. Fiquei impressionada com a distância até lá, pois são apenas duas quadras de onde moro. Entramos em um dos inúmeros teatros do famoso Distrito das Artes de North Hollywood, vulgo NoHo Arts District. A leitura tinha acabado de começar, estavam lendo as rubricas da primeira cena*.

*No e-mail que me enviaram, disseram que iriam ler A Streetcar Named Desire (Um Bonde Chamado Desejo), de Tenesse Williams. Fiquei feliz, pois já conhecia a peça, e já tinha visto o filme com o maravilhoso Marlon Brando, no papel de Stanley. Portanto, fui preparada, e levei o livro com o roteiro completo da peça.

Sentados em cadeiras, no palco, cerca de oito pessoas formavam um semi-círculo. Os personagens haviam sido pré-estabelecidos. Todos pareciam familiarizados com a peça e com os colegas ao redor. Perto de onde sentamos, na platéia, havia uma mesinha com cinco garrafas de vinho, dos tipos branco, tinto e rosé. Cada integrante do grupo segurava seu script, e um copo plástico. A sugestão era doar $2 por copo de vinho ou $5 por quantos copos quisessem beber. O objetivo ali, certamente não era encher a cara, então concordei com o Sean que a estratégia open bar tinha um preço bastante razoável. Apesar de não ter provado o vinho, gostei da combinação deste, com a leitura dramática.

Fizeram uma pausa na quarta cena. Me apresentei, foram todos muito simpáticos e educados. Retomaram as cenas, e terminamos de ler. Durante a leitura, não houve trabalho corporal (como esperado), mas gostei muito da energia com que incorporavam seus personagens nas intenções e entonações vocais. Três horas, com uma pequena pausa de dez minutos, pareceram pouco menos de uma hora. Passou bem rápido mesmo. Tenho certeza de que o fascínio que tenho pela peça, também fez com que o tempo voasse.

A Streetcar Named Desire (Tenesse Williams)

Quarta-feira que vem, vou tentar entrar na roda de leitura. São inúmeras as vantagens  que vejo ao frequentar esses encontros semanais. Além de me aproximar de outros atores, pesquisar, estudar e registrar informações, também conto com a melhora na fluência do idioma, na interpretação vocal e na tão requisitada, leitura à primeira vista.

Estou curiosa para saber o que vão ler na semana que vem…