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Entrei na sala, com cara de culpa, pedindo desculpas, e expliquei minha Escolha Animal.

Assim, sem pensar.

Acordei com aquilo na cabeça, como se algo em minha escolha estivesse errado. Para mim estava mais do que clara a justificativa do GATO e a comparação com a personagem escolhida: Natasha, da peça AS TRÊS IRMÃS, de Anton Chekhov. No entanto, não queria fazer parecer em vão a ida ao zoológico.

Desde o café-da-manhã, até a saída do metrô, enquanto caminhava em direção à Theatre of Arts, só pude pensar em como fundamentar minha breve teoria em relação à minha escolha. Por que gato? Eu sabia exatamente o porquê. Com um balão de razões desenhado sobre a minha cabeça, parei e pensei: É só um exercício! Se ele disser que não é possível fazer o gato, eu penso em outro animal. Quanto drama! Tudo bem, eu sabia que podia pensar em outro animal, mas é que a GATA combina tanto com a Natasha e o que será que ele vai pensar quando eu disser que eu não precisei de um zoológico para perceber isso?

O professor analisou meu desespero, esperou calmamente pelo fim do discurso, até ver que o alívio havia tomado conta da minha respiração. Ele sorriu e franziu a testa. Eu sabia o que ele ia perguntar. Quando o fez, eu tinha a resposta na ponta da língua, mas não sabia posicioná-la verbalmente. Aliás, eu tinha explicado tudo neste Blog há alguns dias. Tentei argumentar e até que minha conclusão filosófica não foi tão ruim, como eu imaginei que seria.

Ele, fitando as meninas dos meus olhos, me perguntou com seriedade: – Você sabe o motivo da ida ao zoológico?

Eu, suando a tinta vermelha que coloria as minhas bochechas, respondi, quase insegura: – Claro! (pausa…) Strasberg sugere uma observação detalhada do animal para compará-lo ao comportamento humano, levando em consideração as intenções e os movimentos do bicho, a fim de incorporá-los num personagem ou criar uma nova figura dramática.

Ele, pensativo e indeciso em relação à minha resposta, me parabenizou e acrescentou: – Muito bem, mas a razão principal, para ser mais específico, nesse exercício, é explorar os cinco sentidos.

Não fiquei triste com a minha resposta, porque não estava errada. Ele só foi mais objetivo do que eu (pela primeira vez). Disse que não havia problema nenhum na minha escolha, pelo contrário, estava feliz por eu ter pesquisado sobre o exercício e características do meu personagem. Julgou importante o esforço e motivo dado para a  seleção do meu animal. Por outro lado, ao longo da aula, pareceu jogar toda essa conversa pro alto, quando afirmou que “QUALQUER animal pode ser qualquer personagem”. Adoraria ter tido um espelho perto para ver minha reação, justamente quando a Sra. Confusão cumprimentara meus neurônios. O professor percebeu.

Começamos a aula transformando nosso corpo nos flamingos do Sean. Em seguida exploramos os sentidos e percepções do gorila do Rob. Por fim, mas não o bastante, ao dar início ao meu gato, o professor me impediu de continuar. Pediu que eu fizesse qualquer outro animal do zoológico, primeiro. Coceirinhas de dúvida me fizeram crer que talvez não tivesse sido uma boa idéia comentar sobre o gato. Ele pode ter ficado chateado por eu não seguir o plano de aula estabelecido.

Continuei. Lembrei que logo na entrada do Zoo, ficamos impressionados com a serenidade e imobilidade de um jacaré, que observamos por quase meia hora, sem que  algo o amedrontasse ou o fizesse mudar de posição. Sem ter a intenção de zombar do exercício, fiz o jacaré, tal como vimos. Aos poucos, o professor pediu que eu levantasse, mas mantivesse toda a serenidade e intenções do jacaré. Eu dominava o meu animal, caminhava com malícia no olhar, sentidos aguçados, respiração pacífica, pronta para atacar, e…

É ela: NATASHA!!!

Finalmente, eu descobri um universo de criatividade, onde tudo é possível.

Explorei outros animais, e realmente consegui ver a Natasha em todos eles. É claro que eu não tentei nada como coelhinho, esquilinho, formiguinha. Aliás, fico curiosa em saber se estes também funcionariam.

Concluí que NATASHA é um zoológico de possibilidades. Cabe a mim, como atriz, explorar seus sentidos, instintos, intenções e perspectivas.