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Vou compartilhar com vocês minhas últimas experiências nas aulas de Interpretação. Me deu arrepios só de pensar [LITERALMENTE].

Para vocês entenderem, a base da técnica na maioria das aulas de teatro (pelo menos nas que fiz no Brasil) são feitas atráves de exercícios de memória emotiva, criados por Stanislavsky em 1911. Ele foi um diretor e ator russo que realmente aprofundou seus conhecimentos na psicologia e comportamento humano para reproduzir emoções e sentimentos no ator, e consequentemente, no personagem.

Contantin Sergeyevich Stanislavsky

Aqui nos Estados Unidos, como no Brasil, Stanislavsky ainda é o pioneiro na concepção de técnicas para o ator e o principal Mestre em Atuação, de todos os tempos. No entanto, existem diversos discípulos, professores que ao longo dos anos adaptaram seus métodos, e recriaram novas técnicas a partir da base de Stanislavsky. Entre eles, estão Richard Boleslavsky, Michael Chekhov, Maria Ouspenskaya, Lee Strasberg, Stela Adler, Herbert Berghof, Uta Hagen, Robert Lewis e Sanford Meisner. Existem vários outros seguidores do Método, mas estes foram os que me chamaram atenção por nunca ter ouvido falar deles, a não ser Michael Chekhov. É chocante chegar aqui e se deparar com a quantidade de adaptações e novos processos para a criação de um personagem.

Minhas últimas aulas de Interpetação tem sido sobre Lee Strasberg, Stela Adler e Michael Chekhov. Um dos exercícios psicológicos de Strasberg que fizemos, consistia em relembrar um evento de nossas vidas, e simplesmente falar sobre. Eu escolhi dois eventos. Um deles foi “O meu primeiro beijo” e o outro, uma das provas públicas da faculdade, na qual estava totalmente sem condições de apresentar o trabalho, mas o fiz mesmo assim, chamava-se “A Morte Bate à Sua Porta” (um pequeno ato de Woody Allen). Aliás, um título bastante sugestivo e com certeza bem inserido no contexto do seguinte conto.

Com vocês, À Morte Bate à Sua Porta!!!

Cheguei na faculdade, e não lembro ao certo porquê, mas sei que não tinha comido muito ao longo do dia. Cheguei mais cedo e estava faminta! Tão esfomeada que podia comer um boi inteiro e pedir pelo segundo. Ao invés do boi, resolvi pedir um croissant bem gordo de quatro-queijos que brilhava e pedia para ser chamado da vitrine da cantina da faculdade. Comi com gosto! Treinei um pouco minhas falas para em breve apresentar. Subi as escadas e comecei a sentir ruídos internos, daqueles que vem com alto-falante de dentro do estômago. Já não estava com fome, então isso não podia ser. De repente o monstrinho que estava sendo criado dentro de mim começou a se manifestar mais violentamente. Uma brava dor tomou conta do meu sistema digestivo e o croissant resolveu que a qualquer hora faria o caminho que acabara de percorrer quando entrou. Queria sair a qualquer custo! Dores de cabeça, dores de barriga, gostinho de bile e suco gástrico na boca, custava respirar. Fui até o banheiro, para libertar o croissant, mas ao abrir a boca, ele ainda estava na dúvida se ficava ou saia. Sabe aquela fase de adaptação, quando não sabemos se gostamos do ambiente ou não? Aposto que o maldito croissant estava nessa situação! Eu não conseguia nem pensar direito.

Pedi para avisarem à professora que eu não tinha condições de apresentar. Mas como ela é um amor, e entende todos os alunos, não quis saber, e disse que ou era a apresentação, ou era pedir por uma nota redondinha: ZERO. Fiquei mais feliz do que nunca, super disposta! Na luta comigo mesma para sair do banheiro direto para o palco, coloquei o figurino e quase virando os olhos de dor e mal-estar, entrei em cena, pelo menos em busca de uma nota 3, que julguei melhor do que Zero.

Como foi? Não lembro. Só podia pensar em outras coisas que não o Ato. Mas acho que foi horrível! É, só pode ter sido péssimo. Lembro que voltei pra casa e aí sim, depois de algumas horas o maldito croissant resolveu que não tinha se adaptado ao ambiente dentro de mim, e saiu com gosto (ruim). Pela quantidade, até parecia que eu tinha mesmo comido um boi e o segundo ainda veio de brinde nadando em suco gástrico. 

Me perdoem o papo escatológico, mas foi o meu pequeno conto na aula de Atuação.

O fator mais interessante do exercício, certamente não foi simplesmente contar essa verídica novela, mas os sentimentos que me vieram ao contá-la. Enquanto dizia que meu estômago roncava, de fato começou a roncar. Parecia que eu estava dando as coordenadas para acontecer tudo de acordo com as minhas descrições. Quando contei do gostinho ruim na boca, de fato comecei a sentí-lo. E assim foi, durante toda a narração. Incrivelmente, isso tudo também afetou os colegas e o professor. Enquanto eu relatava os detalhes, eles começaram a sentir as mesmas sensações que eu. Acredito que toda a concentração foi parte do exercício, mas nos conectamos de uma forma que eu nunca vi igual.

Assim aconteceu durante os diferentes eventos dos outros colegas. Realmente inexplicável! E eu que achei que isso só acontecia em filmes, ou que jamais poderia acontecer comigo, aí está: a prova do poder da memória.