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Há quem diga que nunca passou apuros financeiros. Poxa, que bacana PARA VOCÊ que sempre viveu embaixo da saia da titia ou da vovó! É óbvio que sempre tem o papai e a mamãe para bancar com os gastos e despesas necessárias. E eles com certeza farão isso por você, porque eles vendem tudo por um sorriso do filhinho. E isso começa desde muito cedo: – Pai, me compra um sorvete? Mãe, eu adorei aquele vestido! Me dá um presente?. A cada dia que passa, as crianças vão crescendo: – Mãe, minha amiga foi para a Disney. Posso ir também? Pai, eu preciso de silicone. E continuam então, crescendo: – Sabe aquela Faculdade de Medicina Super Top Particular na Suiça? Eu quero! Mãe, eu quero, eu quero, eu quero. Pai, diz que sim, diz que sim, diz que sim…

Veja bem, sempre fui uma menina muito simples, nas devidas circunstâncias, e para a alegria (ou desespero) dos meus pais, escolhi o curso de Artes Cênicas numa faculdade estadual. Tudo bem que era em outra cidade, e eles teriam que me ajudar com algumas coisinhas como o aluguel do apartamento, a alimentação, as contas de luz, o gás, o telefone fixo, as passagens interestaduais para voltar pra casa nos finais de semana, algumas festas, alguns cursos extras, livros, as compras de mercado, os workshops, presentes para os meus amigos, pra mim, talvez algumas corridas de táxi e por vezes alguns drinques depois da faculdade, sem contar as passagens de ônibus dentro da cidade. Ah, e o celular, que tanto me deu trabalho. Mas até que eu consegui pagar alguns pequenos luxos, como minha sobremesa de vez em quando, um brinco, uma maquiagem.

Mas assim, quando você tem um pai judeu ou alemão, – quando a faculdade termina, – a perspectiva é outra. Todo aquele brilho estudantil some, de repente, sem dar tchau, ou uma explicação do seu adeus. Eu, que tinha sido tão legal, durante todos aqueles anos, ainda fiquei na esperança de um “até logo”, “não me deixe”, mas acho que não fui boa o suficiente e cortamos relações. A partir do momento que você recebe o Diploma (no meu caso o Certificado, porque o Diploma ainda não tive a honra; meus colegas de sala tinham uma essência revolucionária e adiaram o prazo de entrega, sem querer: longa história, outro dia conto), a sua vida, de recém EX-estudante muda. É simples, eu devia saber disso. Eu sabia, mas certamente varri os conselhos paternais para baixo do tapete.

Pois é, meu pai é alemão. Os judeus tem uma fama ainda maior de esconder o seu ducado, mas afinal não foram eles que construíram impérios financeiros ao redor do mundo? Respeito, muito respeito! Alemães tem o mesmo nível de pensamento. (“E eu espero que você saiba o sucesso que está por vir no destino de sua filha, Dr. Schreiber”.) Quando se tratam dos filhos, não é que eles não queiram o sorriso do bendito, mas certamente farão com que você suba ao menos dois ou três degraus sozinhos. E é com muita ALEGRIA (se é que alguém faz isso com algum pingo de felicidade) que agora acabou a palhaçada, mamata, sinecura, e vou ter que buscar um trabalho para poder pagar as minhas contas ao invés de ficar pedindo qualquer tipo de unidade contábil aos meus queridíssimos.

E que o acaso me encontre logo, se não vou dar um jeito de encontrá-lo, ou encomendar um cutucão e mostrar a ele que supostamente: I really know how to shake what my mama gave me.

Que venha St. Patrick’s Day com alguma luz para me socorrer!!!                  (“Dia irlandês da sorte”: 17 de março, 2012)