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Toda vez que você pensa em alguma figura que representa o teatro…          Você pensa em… 

Ou seja, todo mundo que já fez teatro já ouviu falar na bendita Máscara do Ator. Se não ouviu, ao menos viu o símbolo que representa o teatro.

Este termo, na verdade, sempre foi muito utilizado em várias aulas, workshops e palestras sobre a pesquisa teatral. Até DOMINGO passado, eu entendia que existia uma máscara da qual o ator podia aplicar como ferramenta na construção de um personagem. [Só]. Nunca achei que fosse grande coisa. No fundo, parecia tão sem graça… Sabe aqueles termos e idéias que você simplesmente aceita porque são ditos por algum conhecedor da área? Certamente você nunca parou para pensar sobre o que aquilo realmente significa. De repende, um certo dia, a ficha cai. Você entende. Tudo torna-se decifrável. Você começa a gostar da coisa.

Não sei. Talvez tenha sido falta de comunicação, ou uma lacuna na minha interpretação. Quem sabe até, e mais provável, uma carência de explicação. Também é possível que o hábito de ver as máscaras teatrais frequentemente, não me induzissem às dúvidas.

Aconteceu comigo, no domingo passado, durante um exercício psico-físico de Chekhov; eu finalmente entendi o que a tal Máscara do Ator significa, além do seu modo de preparo, e truques da receita. Eu compreendo que não é tão simples explicar a essência do conceito, mas também não é impossível. Alguns cidadãos, comprometidos com a educação (ou não), metidos a “intelectuais” tentam explicar o significado de algo simples (como “água”), enfiando silogismos em suas reflexões críticas e filosóficas (a respeito da coitada da “água”), ao invés de demonstrar praticamente o que é, de fato.

Devo concordar com Einstein quando diz: “Se você não é capaz de explicar de forma simples, você não entende bem o suficiente.”

Ao invés de tentar explicar com palavras conceituais, prefiro compartilhar a atividade que me fez abrir os olhos, e perceber o motivo da existência da tal Máscara do Ator:

 – Cuidado! Essas máscaras são extremamente poderosas. Cuidem bem delas, e elas cuidarão bem de vocês! Lembrem-se: Cada uma delas tem um ego, um humor, uma personalidade diferente. Vou apresentar uma delas à vocês, para que vejam a autoridade que ela impõe sobre o meu corpo. – disse a professora, escolhendo uma das máscaras espalhadas pelo chão.

As máscaras que estavam expostas eram todas diferentes, com caretas diversas. Lembrei-me das máscaras da Grécia Antiga: com expressões faciais exageradas para ajudar o ator a definir o personagem, a “permissão” para interpretar mais de um papel,  brincar com o sexo oposto, etc.  

Ela analisou a máscara. Respirou fundo, virou-se para o espelho, e de costas para os alunos, encaixou-a em seu rosto. Quando ela levantou a cabeça e olhou-se no espelho, automaticamente seu corpo se transformou. A deficiência (ou eficiência) corporal era a máscara quem criava, e aos poucos dominava todas as articulações do corpo da professora, de acordo com a expressão facial do seu novo rosto. Após a demonstração da influência super-poderosa dessa face totalmente estranha, que se apoderava gradativamente dos seus movimentos, ela finalmente tirou a máscara e suspirou:

- Uau! Essa é muito poderosa! 

Ficamos receosos no começo, percebemos a nossa ansiedade saudar o medo. Escolhemos uma cada um, e partimos para o ritual. O objetivo era se livrar do ego, dos julgamentos exteriores, e deixar a máscara tomar conta do nosso corpo até o último fio de cabelo.

Depois de observar todos os detalhes da máscara que escolhi, coloquei-a no rosto e olhei para o espelho. Sem pensar em nada, meu corpo se contraiu e eu comecei a andar de um jeito muito estranho. Nunca passei por uma experiência assim. Esse novo olhar, novo sorriso, novas intenções, são realmente poderosas e tomam conta de todos os meus instintos. Eu, Wayra, respirava ao mesmo ritmo do corpo dessa máscara, que não era mais meu, não me pertencia como antes. De repente me vi do alto, sob outra perspectiva, como se eu fosse um espírito ao qual um personagem se havia incorporado.

A professora, entre outras coisas, disse:

“A MÁSCARA SE TORNA VIVA, QUANDO O ATOR SE TORNA VIVO”

Então a ficha caiu. No instante que ela disse aquilo… Me emocionei! Essa frase é tão sábia, que por si só, explicou todo o princípio do exercício e o porquê do símbolo mais antigo da interpretação teatral. A máscara é quem guia o corpo do ator para construir todas as características necessárias a fim de criar vida e ponto-de-vista para um alguém, que não sou eu, mas talvez seja um alguém onde eu habito.

Parece bobo, mas o conceito das máscaras na minha cabeça mudou totalmente. O trabalho de interpretação se tornou muito mais “vivo”. Simples assim.

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